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* Tradução de José Leandro Farias Benitez

 

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Crítica da Razão Pura

 

INTRODUÇÃO

I

 

Da distinção do conhecimento puro do empírico

 

Não se pode duvidar que todos os nossos conhecimentos começam com a experiência, porque, com efeito, como haveria de exercitar-se a faculdade de conhecer, se não fosse pelos objetos que, exercitando nossos sentidos de uma parte, produzem por si mesmos representações, e, de outra, impelem nossa inteligência a compará-las entre si, ligá-las ou separá-las, e desta sorte compor a matéria informe das impressões sensíveis para formar esse conhecimento das coisas que se chama experiência? No tempo, pois, nenhum dos nossos conhecimentos precede a experiência, e todos começam por ela.

Mas, se é verdade que todos os nossos conhecimentos começam com a experiência, todos, entretanto, não procedem dela, pois bem poderia acontecer que nosso conhecimento empírico fosse uma composição do que recebemos pelas impressões e do que aplicamos por nossa própria faculdade de conhecer (simplesmente excitada pela impressão sensível), e que não possamos distinguir este fato até que uma longa prática nos habilite a separar esses dois elementos.

É, portanto, pelo menos, uma das primeiras e mais necessárias questões, e que não pode resolver-se a simples vista, a de saber se há algum conhecimento independente da experiência e também de toda impressão sensível. Chama-se este conhecimento a priori, e distingue-se do empírico em que as fontes do último são a posteriori, isto é, que as tem na experiência.

            Entretanto, a expressão a priori não determina todo o sentido da precedente questão; pois costuma dizer-se que podemos ter a priori, ou em parte ao menos, muitos de nossos conhecimentos derivados da experiência, porque não os tomamos imediatamente dela, e sim que procedem de regras gerais; sem notar que essas regras se derivam também da mesma experiência. Assim, se diz que daquele que mina os alicerces da sua casa devia saber a priori que esta desabaria; em outros termos, que não devia esperar que a experiência lho demonstrasse; mas isso não pode saber-se senão a posteriori, pois quem, senão a experiência, nos ensina que os corpos são pesados e que, isolados de todo apoio, caem?

            Entenderemos, pois, a seguir por conhecimentos a priori, não aqueles que de um modo ou outro dependem da experiência, mas os que são absolutamente independentes dela; a estes conhecimentos são opostos os chamados empíricos, ou que só são possíveis a posteriori, isto é, pela experiência. Entre os conhecimentos a priori, chama-se puro aquele que carece absolutamente de empirismo. Assim, por exemplo, “toda mudança tem uma causa” é um princípio a priori; mas não puro, porque o conceito de mudança só pode formar-se com a experiência.

 

II

 

Achamo-nos de posse de certos conhecimentos “a priori” e o  próprio senso comum não carece sempre deles

 

            Esta é a ocasião de dar um sinal pelo qual possamos distinguir o conhecimento puro do empírico. A experiência nos mostra que uma coisa é de tal ou qual maneira; mas não nos diz que possa ser de outro modo. Digamos, pois: primeiro: se se acha uma proposição que tem que ser pensada com caráter de necessidade, essa proposição é um juízo a priori. Se ademais não é derivada e só se concebe como valendo por si mesma, como necessária, é então absolutamente a priori. Segundo: a experiência não dá nunca juízos com uma universalidade verdadeira e estrita, mas com uma generalidade suposta e comparativa (pela indução), o que propriamente quer dizer que não se observou até agora uma exceção a determinadas leis. Um juízo, pois, pensado com estrita universalidade, isto é, que não admite exceção alguma, não deriva da experiência e tem valor absoluto a priori. Portanto, a universalidade empírica não é mais do que uma extensão arbitrária de valor, pois se passa de um valor que corresponde à maior parte dos casos ao que corresponde a todos eles, como, por exemplo, nesta proposição: “Todos os corpos são pesados”. Ao contrário, quando uma estrita universalidade é essencial em um juízo, esta universalidade indica uma fonte especial de conhecimento, isto é, uma faculdade de conhecer a priori. A necessidade e a precisa universalidade são os caracteres evidentes de um conhecimento a priori, e estão indissoluvelmente unidos. Mas como na prática é mais fácil mostrar a limitação empírica de um conhecimento do que a contingência nos juízos, e como também é mais evidente a universalidade ilimitada do que a necessidade absoluta, convém servir-se separadamente destes dois critérios, que cada um é por si só infalível.

            É bem fácil mostrar que realmente há no conhecimento humano juízos de um valor necessário e na mais estrita significação universais; por conseguinte, juízos puros a priori. Se se quer um exemplo tomado das próprias ciências, não há mais que reparar nas proposições matemáticas. Se se quer outro, tomado do uso comum do Entendimento, pode mostrar-se que o princípio de toda mudança exige uma causa. Neste último exemplo, o conceito de causa contém de tal modo o conceito de necessidade de ligação com um efeito e da estrita generalidade da regra, que desapareceria por completo se, como fez Hume, quiséssemos derivá-lo da freqüente associação do que segue com o que precede e do hábito (por conseguinte, de necessidade puramente subjetiva) de ligar as representações. Também se poderia, sem empregar esses exemplos, provar a realidade de princípios puros a priori em nossos conhecimentos, por sua própria necessidade para a possibilidade da experiência, sendo portanto uma demonstração a priori. Porque, onde tomaria a experiência sua certeza se todas as regras que empregasse fossem empíricas e contingentes? Assim, as que têm esse caráter são dificilmente aceitas como primeiros princípios. Basta-nos haver manifestado aqui o uso puro de nossa faculdade de conhecer de uma maneira efetiva e os caracteres que lhe são próprios. Mas não é só nos juízos, como também nos conceitos, onde se encontra uma origem a priori. Tirai esse conceito experimental de um corpo tudo o que tem de empírico, a saber: cor, dureza ou moleza, peso, penetrabilidade, e sempre fica o espaço que ocupava esse corpo (o qual desapareceu) e que não podeis destruir. Quando separais de algum dos conceitos empíricos de um objeto, corpóreo ou não, todas as propriedades que a experiência ensina, não podeis, entretanto, privá-lo daquela mediante a qual a pensais como substância ou como dependente dela (embora este conceito de substância contenha mais determinação que o de um objeto em geral). Deveis, pois, reconhecer, convencidos pela necessidade com que este conceito se vos impõe, que existe a priori em nossa faculdade de conhecer[1].

 

III

 

A Filosofia precisa de uma ciência que determine a possibilidade, os princípios e a extensão de todos os conhecimentos "a priori"

 

            Há uma coisa ainda mais importante que o que precede, e é que certos conhecimentos por meio de conceitos, cujos objetos correspondentes não podem ser dados na experiência, se emancipam deste e parece que estendem o círculo de nossos juízos mais além de seus limites.

            E precisamente nestes últimos conhecimentos que se eximem do mundo sensível, e aos quais a experiência não pode servir de guia nem de retificação, residem as investigações de nossa razão, investigações que por sua importância nos parecem superiores, e por seu fim muito mais sublimes que tudo o que a inteligência pode aprender no campo dos fenômenos; investigações tão importantes que abandoná-las por incapacidade mostra pouco apreço ou indiferença, e tudo o tentamos ainda correndo o risco do erro.

             Esses inevitáveis temas da Razão pura são: Deus, Liberdade e Imortalidade. A ciência cujo fim e procedimentos tendem propriamente à resolução dessas questões se chama Metafísica. Sua marcha é, no começo, dogmática; isto é, que empreende confiadamente seu trabalho sem ter provas da potência ou impotência de nossa razão para tão grande empreendimento.

            Parecia, entretanto, natural que, ao abandonar o terreno da experiência, não construíssem imediatamente um edifício com conhecimentos adquiridos sem saber como, ou sobre o crédito de princípios cuja origem ignoramos. E sem ter-se assegurado, perante tudo, mediante cuidadosas investigações, da solidez de seus fundamentos. Pelo menos, antes de começar a construí-lo, deveriam ter proposto estas questões: Como pode chegar a inteligência aos conhecimentos a priori? Que extensão, legitimidade e valor podem estes ter? Com efeito, nada seria mais natural, se esta palavra significa o que convenientemente e racionalmente deve suceder; mas, se por ela entendemos o que ordinariamente se faz, nada é mais natural que dar ao esquecimento essas questões, pois gozando de certeza uma parte de nossos conhecimentos, a Matemática, se concebe a agradável esperança de que os demais cheguem ao mesmo ponto. Por outra parte, abandonando o círculo da experiência, podem estar certos de não ser contraditados por ela. O desejo de estender nossos conhecimentos é tão grande que só detém seus passos quando tropeça com uma contradição claríssima; mas as ficções do pensamento, se estão arrumadas com certo cuidado, podem evitar tais tropeços, ainda que nunca deixem de ser ficções.

            A matemática fornece um brilhante exemplo do que poderíamos fazer independentemente da experiência nos conhecimentos a priori. É verdade que não se ocupam mais que de objetos e conhecimentos que podem ser representados pela intuição; mas esta circunstância facilmente se pode reparar, porque a intuição de que se trata pode dar-se a priori por si mesma, e, por conseguinte, é apenas distinguível de um simples conceito puro. A propensão a estender os conhecimentos, imbuída com esta prova do poder da Razão, não vê limites para seu desenvolvimento. A leve pomba agitando com seu livre vôo o ar, cuja resistência  nota, poderia imaginar que seu vôo seria mais fácil no vazio. Assim Platão, deixando o mundo sensível, que encerra a inteligência em limites tão estreitos, lançou-se em asas das idéias pelo espaço vazio do Entendimento puro, sem notar que com seus esforços não adiantava nada, faltando-lhe ponto de apoio onde sustentar-se e firmar-se para aplicar suas forças na esfera própria da inteligência. Mas tal é comumente a marcha da razão humana na especulação; termina o mais rápido possível a sua obra, e não procura, até muito tempo depois, indagar o fundamento no qual descansa. Uma vez chegada a este caso, encontra toda a classe de pretextos para consolar-se dessa falta de solidez, ou, em último termo, repele voluntariamente a perigosa e tardia prova. Mas o que nos livra de todo cuidado e receio durante a construção de nossa obra, e ainda nos engana por sua aparente solidez, é que uma grande parte, e talvez a maior, do trabalho de nossa razão consiste na análise de conceitos que já temos formados sobre os objetos. Isto nos propicia uma infinidade de conhecimentos que, se bem é certo que não são outra coisa que esclarecimentos e explicações daquilo que foi pensado em nossos conceitos (ainda que de uma maneira confusa), estimam-se entretanto, como novas luzes (Einsichter), pelo menos, enquanto a sua forma, por mais que não aumentem a matéria nem o conteúdo de nossos conceitos, mas que simplesmente os preparam e ordenam. Como este procedimento dá um conhecimento real a priori, que segue uma marcha segura e útil, enganada e iludida a razão, sem notá-lo, entra em afirmações de uma natureza completamente diferente e totalmente estranhas ao conceito dado a priori e sem que saiba como as conseguiu nem se lhe ocorra fazer-se semelhante pergunta. Por isso, pois, tratarei desde o princípio da diferença que há entre essas duas espécies de conhecimentos.

 

IV

 

Diferença entre o juízo analítico e o sintético

 

            Em todos os juízos nos quais se concebe a relação de um sujeito com um predicado (considerando só os juízos afirmativos, pois nos negativos é mais fácil fazer depois a aplicação), esta relação é possível de duas maneiras: ou o predicado B pertence ao sujeito A como algo contido nele (de um modo tácito), ou B é completamente estranho ao conceito A, se bem que se acha ligado com ele. No primeiro caso chamo o juízo analítico, e no segundo sintético. Os juízos analíticos (afirmativos) são, pois, aqueles nos quais a ligação do sujeito com o predicado se concebe por identidade; e aqueles, ao contrário, cuja ligação é sem identidade devem chamar-se juízos sintéticos. Poder-se-ia chamar os primeiros juízos explicativos, pela razão de que aqueles não acrescentam nada ao sujeito em conceitos parciais compreendidos e concebidos (ainda que tacitamente) no mesmo, enquanto que, ao contrário, os últimos acrescentam ao conceito de sujeito um predicado que não era em modo algum pensado naquele e que não se teria produzido por nenhuma decomposição. Quando digo, por exemplo: "todos os corpos são extensos", é um juízo analítico, porque não tenho que sair do conceito de corpo para achar unida a ele a extensão, e só tenho que decompô-lo, isto é, só preciso fazer-me cônscio da diversidade que pensamos sempre em dito conceito para encontrar o predicado; é, portanto, um juízo analítico. Ao contrário, quando digo: "todos os corpos são pesados", o predicado é algo completamente diferente do que eu em geral penso no simples conceito de corpo. A adição de tal atributo dá, pois, um juízo sintético.

            Os juízos da experiência como tais são todos sintéticos. Porque seria absurdo fundar um juízo analítico na experiência, pois para formá-lo não preciso sair de meu conceito e por conseguinte não me é necessário o testemunho da experiência. Que um corpo é extenso, é uma proposição a priori e não um juízo da experiência, porque antes de dirigir-me à experiência tenho já em meu conceito todas as condições do juízo; só me resta, segundo o princípio de contradição, tirar o predicado do sujeito e ao mesmo tempo chegar a ser cônscio da necessidade do juízo, necessidade que nunca a experiência me pode fornecer. Ao contrário, ainda que eu não deduza do conceito de corpo em geral o predicado "pesado", indica, entretanto, aquele conceito um objeto da experiência, uma parte da experiência total, à qual posso ainda acrescentar outra parte da mesma como pertencente e ela. Posso reconhecer analiticamente o conceito de corpo pelas propriedades de extensão, impenetrabilidade, forma, etc., etc., as quais são todas elas pensadas neste conceito. Mas, se estendo meu conhecimento e observo a experiência que me proporcionou o conceito de corpo, acho ligada constantemente com todas as anteriores propriedades a de pesadume, e acrescento por tanto sinteticamente este predicado àquele conceito. Logo, mediante a experiência, se funda a possibilidade da síntese do predicado "pesado" com o conceito de corpo, porque ambos conceitos, ainda que em verdade não estejam contidos um no outro, se pertencem, entretanto, de uma maneira contingente como partes de um todo, da experiência, que é uma ligação sintética de intuições[2].

            Mas nos juízos sintéticos a priori falta absolutamente esse apoio. Se devo sair do conceito A para conhecer o conceito B ligado a ele, onde hei de apoiar-me e como fazer para que a síntese seja possível, não tendo já a vantagem de dirigir-me ao campo da experiência? Tomemos a proposição seguinte: "tudo o que sucede tem sua causa". No conceito de algo que sucede, penso em verdade numa existência, ante a qual passou tempo e de onde posso deduzir juízos analíticos. Mas o conceito de causa está completamente fora daquele, indica algo diferente do suceder e que portanto não está compreendido no primeiro conceito. Como, pois, atribuir ao que sucede algo que lhe é completamente estranho? E como conhecer que o conceito de causa, ainda que não compreendido no de suceder, se lhe refere, entretanto, e até lhe pertence necessariamente? Que é essa incógnita X na qual se apóia o entendimento quando crê descobrir fora do conceito A um predicado que lhe é alheio, e que, entretanto, estima como unido a ele? Não pode ser a experiência, dado que a referida proposição reúne as duas representações, não só de um modo geral, mas também com o caráter de necessidade, isto é, a priori e por puros conceitos. Em tais proposições sintéticas, isto é, extensivas, se funda todo o objeto final de nosso conhecimento especulativo a priori; porque, se bem as analíticas são muito importantes e muito necessárias, só servem para conseguir a clareza dos conceitos, que é tão indispensável para uma segura e ampla síntese como uma nova e real aquisição.

 

V

 

Em todas as ciências teóricas da Razão se acham contidos, como princípios, juízos sintéticos "a priori"

 

            I. Os juízos matemáticos são todos sintéticos. Esta proposição parece ter escapado até hoje às indagações dos que analisam a razão humana, e quase está oposta a suas conjeturas, apesar de sua incontrovertível certeza e da suma importância de suas conseqüências. Como se observa que os raciocínios dos matemáticos procediam todos do princípio da contradição (exigido pela natureza de toda certeza apodítica), se cria também que os princípios haviam sido reconhecidos em virtude do mesmo procedimento; no que se enganaram, porque, se indubitavelmente uma proposição sintética pode ser considerada segundo o princípio de contradição, isto não é possível dentro dela mesma, mas supondo outra proposição sintética da que possa resultar a contradição.

            Deve notar-se, ante tudo, que as proposições propriamente matemáticas são sempre juízos a priori e não juízos empíricos, porque implicam necessidade, a qual não pode obter-se da experiência. Mas, se não se quer conceder isto, limito minha proposição à Matemática pura, cujo conceito traz consigo o não conter conhecimento empírico, mas somente a priori.

            Poder-se-ia em verdade crer à primeira vista que a proposição 7 + 5 = 12 é puramente analítica, que procede, segundo o princípio de contradição, do conceito de uma soma de sete e cinco. Mas, se se a considera com mais atenção, se acha que o conceito de soma de sete e cinco não contém mais que a união dos dois números num só, o que não faz que se pense qual seja esse número único que compreenda os outros dois. O conceito de doze não é em modo algum percebido por só pensar-se a união de cinco e sete, e posso decompor todo o meu conceito dessa soma tanto como queira, sem que por isso encontre o número doze. É preciso, pois, deixar este conceito e recorrer à intuição que corresponda a um dos dois números, quiçá aos cinco dedos da mão ou a cinco pontos (como faz Segner em sua Aritmética), e acrescentar sucessivamente ao conceito sete as cinco unidades dadas na intuição. Com efeito, tomo primeiramente o número sete e, auxiliando-me de meus dedos como intuição para o conceito cinco, acrescento sucessivamente o número sete às unidades que tive que reunir para formar o cinco, e assim vejo produzir-se o número doze. Que para a adição de sete e cinco tenho eu a idéia desta soma 7 + 5 é verdade; mas não que esta soma seja igual ao número doze. A proposição aritmética é, pois, sempre sintética: o que se compreende ainda mais claramente se se tomam números maiores, pois então é evidente que, por mais que reviremos e coloquemos nossos conceitos o quanto queiramos, nunca poderemos achar a soma mediante a simples decomposição de nossos conceitos sem o auxílio da intuição.

            Não são também analíticos os princípios da Geometria pura. É uma proposição sintética que a linha reta entre dois pontos é a mais curta, porque meu conceito de reto não contém nada que seja quantidade, mas só qualidade. O conceito de mais curta é completamente agregado e não pode provir em modo algum da decomposição do conceito de linha reta. É preciso, pois, acudir aqui à intuição, único modo para que seja possível a síntese.

            Alguns poucos princípios, que os geômetras pressupõem, são realmente analíticos e se apóiam no princípio de contradição; mas também é verdade que só servem, como proposições idênticas, ao encadeamento do método e não como princípios, tais como, por exemplo, a = a: o todo é igual a si mesmo; ou (a + b) > a: o todo é maior que a parte. E, entretanto, estes mesmos axiomas, embora valham como simples conceitos, são admitidos na Matemática somente porque podem ser representados na intuição. A antigüidade da expressão é a que geralmente nos faz crer que o predicado de tais juízos apodíticos existe já em nossos conceitos, e que, por conseguinte, é analítico o juízo. A um conceito dado temos que acrescentar certo predicado, e esta necessidade pertence já aos conceitos. Mas a questão não é o que devemos acrescentar como o pensamento a um conceito dado, mas o que realmente pensamos nele, ainda que de um modo obscuro. Vemos, pois, que o predicado se une necessariamente ao conceito, não como concebido nele, mas mediante uma intuição que a ele deve unir-se.

            II. A Ciência da natureza (Física) contém, como princípios, juízos sintéticos "a priori". Só tomarei como exemplo estas duas proposições: Em todas as mudanças do mundo corpóreo a quantidade de matéria permanece sempre a mesma, ou, em toda comunicação de movimento, a ação e reação devem ser sempre iguais. Em ambas veremos, não só a necessidade e, por conseguinte, sua origem a priori, mas também que são proposições sintéticas. Porque no conceito de matéria não percebo eu sua persistência, mas unicamente sua presença no espaço que ocupa, e, por tanto, vou mais além do conceito de matéria para atribuir-lhe algo a priori que não havia sido concebido nele. A proposição não foi, pois, concebida analítica, mas sinteticamente, ainda que a priori, e assim sucede com as restantes proposições da parte pura da Física.

            III. Também deve haver conhecimentos sintéticos "a priori" na Metafísica, ainda que só a consideremos como uma ciência em ensaio, mas que, entretanto, faz indispensável a natureza da razão humana. A Metafísica não se ocupa unicamente em analisar os conceitos das coisas que nos formamos a priori, e, por conseguinte, em explicações analíticas, senão que por ela queremos estender nossos conhecimentos a priori, e para o efeito nos valemos de princípios que aos conceitos dados acrescentam algo que não estava compreendido neles, e mediante os juízos sintéticos a priori nos afastamos tanto que a experiência não pode seguir-nos; por exemplo, na proposição: O mundo deve ter um primeiro princípio, etc., etc. Assim, pois, a Metafísica consiste, pelo menos segundo seu fim, em proposições puramente sintéticas a priori.

 

VI

 

Problema geral da Razão pura

 

            Muito se adiantou com haver podido trazer à forma de um só problema uma infinidade de questões. Com isso, não só se facilita o próprio trabalho determinando-o com precisão, mas também se facilita o exame para outro que queira provar se cumprimos ou não nosso desígnio. O verdadeiro problema da Razão pura se contém na pergunta: Como são possíveis os juízos sintéticos a priori?

            Se a Metafísica permaneceu até agora em um estado vago de incerteza e contradição, deve atribuir-se unicamente a que este problema, como também a diferença entre o juízo analítico e o sintético, não se haviam apresentado antes ao pensamento. A vida ou morte da Metafísica pende da resolução deste problema, ou da demonstração de que é impossível resolvê-lo. David Hume é, de todos os filósofos, o que mais se aproximou a esse problema, mas esteve longe de determiná-lo suficientemente e não o pensou em toda sua generalidade; detendo-se só ante o princípio sintético da relação de Causa e Efeito (principium causalitatis), creu poder deduzir que o tal princípio é absolutamente impossível a priori, e, segundo suas conclusões, tudo o que nós chamamos Metafísica descansaria sobre uma simples opinião de um pretenso conhecimento racional, que no fato nasce simplesmente da experiência e que recebe do hábito certo aspecto de necessidade. Esta afirmação, destruidora de toda Filosofia pura, não se teria nunca emitido, a ter o autor abarcado em toda sua generalidade esse problema, porque então teria compreendido que, segundo seu argumento, tampouco poderia existir a Matemática pura, pois esta contém certamente princípios sintéticos a priori, e seu bom entendimento teria retrocedido ante semelhante asserção.

            Na resolução do precedente problema está também compreendida ao mesmo tempo a possibilidade do emprego da Razão pura na fundação e construção de todas as ciências que contêm um conhecimento teórico a priori dos objetos, isto é: está contida a resposta a estas perguntas:

            Como é possível a Matemática pura?

            Como é possível a Física pura?

            Não se pode perguntar destas ciências mais que como são possíveis, porque ao existir como reais demonstram já que o são[3]. Pelo que respeita à Metafísica, como seus passos foram até hoje tão infelizes, tão distantes do fim essencial da mesma, que pode dizer-se que todos têm sido em vão, perfeitamente se explica a dúvida de sua possibilidade e de sua existência.

            Mas, entretanto, esta espécie de conhecimento deve, em certo sentido, considerar-se como dado; e a Metafísica é real, se não como Ciência feita, ao menos em sua disposição natural (metaphisica naturalis), porque a razão humana, sem que esteja movida pela vaidade de uma onisciência, mas simplesmente estimulada pela necessidade própria, caminha sem descanso algum em direção a questões que não podem ser resolvidas pelo uso empírico da Razão nem por princípios que dela emanem. Isto sucede realmente a todos os homens, tão logo a sua razão começa a especular; por isto a Metafísica existiu sempre e existirá ali onde esteja o homem. Assim que nossa questão é agora: Como é possível a Metafísica enquanto disposição natural? Quer dizer: Como nascem da natureza da razão humana em geral essas questões, que a Razão pura formula e que por necessidade própria se sente impelida a resolver?

            Mas como todos os ensaios feitos até hoje para resolver essas questões naturais, por exemplo a de saber se o mundo teve um princípio, ou se é eterno, etc., encontraram contradições inevitáveis, não podemos contentar-nos com a simples disposição natural para a Metafísica, isto é, com a faculdade da Razão pura, donde procede sempre a Metafísica, qualquer que seja; senão que deve ser possível chegar com ela a uma certeza ou ignorância dos objetos, a poder afirmar algo sobre os objetos dessas questões ou sobre a potência ou impotência da Razão, e, por conseguinte, a estender com confiança seu poder ou pôr-lhe limites seguros e determinados. Esta última questão, que resulta do problema geral que precede, se expressa nos seguintes termos: De que modo é possível a Metafísica como Ciência?

            A Crítica da Razão conduz, no fim, necessariamente à Ciência; o uso dogmático da Razão sem Crítica conduz, ao contrário, a afirmações infundadas, que sempre podem ser contraditadas por outras não menos verossímeis, por onde se vai ao ceticismo.

            Tampouco pode esta ciência ter uma extensão excessiva, porque não se ocupa dos objetos da Razão, cuja diversidade é infinita, mas simplesmente da Razão mesma, de problemas que nascem exclusivamente de seu seio e que se lhe apresentam, não pela natureza das coisas que diferem dela, mas pela sua própria. Mas, uma vez que conheça perfeitamente sua própria faculdade em relação com os objetos que pode fornecer-lhe a experiência, lhe será fácil determinar com toda a segurança e exatidão a extensão e limites de seu exercício, tentado fora dos limites da experiência.

            Pode e ainda deve-se, pois, considerar como ineficaz todo ensaio feito até aqui para constituir uma Metafísica dogmática, porque o que neles há de analítico, a saber, a simples decomposição dos conceitos que a priori se acham em nossa Razão, não é seu fim total, mas somente um meio preliminar da Metafísica, cujo objeto é estender nossos conhecimentos sintéticos a priori. A análise é incapaz de realizar isto, pois se reduz a mostrar o que se acha contido em ditos conceitos, e não diz como foi adquirido a priori, para poder depois determinar seu legítimo emprego nos objetos de todos nossos conhecimentos em geral. Não se precisa grande abnegação para renunciar a todas essas pretensões, dado que as evidentes e inevitáveis contradições da Razão consigo mesma no procedimento dogmático causaram faz bastante tempo o descrédito de toda metafísica. De preferência será mister muita firmeza para que a dificuldade interna e a oposição externa não nos separem de uma ciência tão indispensável à Razão humana, cuja raiz não poderia extirpar-se ainda que se cortassem todos os seus ramos exteriores, e que mediante um método diferente e oposto ao que até hoje tem sido empregado pode adquirir um útil e fecundo desenvolvimento.

 

VII

 

Idéia e divisão de uma ciência particular sob o nome de Crítica da Razão pura

 

            De tudo o que precede resulta, pois, a idéia de uma Ciência particular, que pode chamar-se Crítica da Razão pura[4], por ser a Razão a faculdade que proporciona os princípios do conhecimento a priori. Daí que Razão pura é a que contém os princípios para conhecer algo absolutamente a priori. Um Organon da Razão pura seria o conjunto de princípios mediante os quais todos os conhecimentos puros a priori poderiam ser adquiridos e realmente estabelecidos. A aplicação extensa de tal Organon produziria um sistema da Razão pura. Mas como isto seria exigir demasiado, e como fica ainda por saber se a extensão de nosso conhecimento é possível, e em que casos, podemos considerar a Ciência do simples juízo da Razão pura, de suas fontes e limites, como a propedêutica para o sistema da Razão pura. Esta propedêutica não deveria chamar-se Ciência, mas somente Crítica da Razão pura: sua utilidade, desde o ponto de vista especulativo, seria puramente negativa e não serviria para estender nossa razão, mas para emancipá-la de todo erro, que não é pouco adiantar. Chamo transcendental todo conhecimento que em geral se ocupe, não dos Objetos, mas da maneira que temos de conhecê-los, enquanto seja possível a priori[5]. Um sistema de tais conceitos se chamaria Filosofia transcendental. Mas esta Filosofia é demasiada para começar, pois como deve conter todo o conhecimento, tanto o analítico como o sintético a priori, estender-se-ia muito mais longe do que corresponde a nosso plano. Devemos tratar somente da análise enquanto é indispensável e necessária para perceber em toda a sua extensão os princípios da síntese a priori. Síntese que é nosso único assunto. Esta investigação, que não podemos chamar propriamente Ciência, mas tão-só Critica transcendental, pois tem por fim, não o aumento de nossos conhecimentos, mas a retificação deles, vem a ser como a pedra de toque para estimar o valor ou insignificância de todos os conhecimentos a priori, que é no que nos ocupamos atualmente. A Crítica é, portanto, no possível, uma preparação para um Organon, e se este não se conseguisse, será, ao menos, um Canon segundo o qual pode em todo caso ser exposto analítica e sinteticamente o sistema completo da Filosofia da Razão pura, que deve consistir na extensão ou na simples limitação do conhecimento racional. Se se atende a que dito sistema tem por objeto, não a natureza das coisas, que é infinita, mas o entendimento que julga sobre a natureza das coisas, e ainda este entendimento considerado somente em relação a seus conhecimentos a priori, podemos presumir que o sistema não é impossível, nem tão vasto que não possa esperar-se seu término. Como não necessitamos procurar esse objeto exteriormente, nem pode permanecer escondido para nós, não parece que tenha de ser tão extenso que não possamos abarcá-lo em sua totalidade, apreciar seu valor e estimar-lhe em seu justo preço. Menos ainda deve esperar-se que esta obra seja uma Crítica de livros publicados sobre sistemas da Razão pura; aqui só se trata de uma Crítica da faculdade da Razão pura. Somente tomando esta Crítica como base, se logra uma segura pedra de toque para apreciar o valor das obras filosóficas antigas e modernas; sem elas, o historiador e o juiz condenam incompetentemente as asserções de outros, tendo-as como infundadas em nome das próprias[6], que não têm melhor fundamento[7].

            A Filosofia transcendental é a idéia de uma Ciência cujo plano deve traçar a Crítica da Razão pura de uma maneira arquitetônica, isto é, por princípio e com a mais plena segurança da perfeição e solidez de todas as peças que a compõem. É o sistema de todos os princípios da Razão pura[8]. Se a Crítica não toma o nome de Filosofia transcendental, é só porque deveria, para ser um sistema completo, conter uma análise detalhada de todos os conhecimentos humanos a priori. A Crítica deve, sem dúvida alguma, pôr ante nossos olhos uma perfeita enumeração de todos os conceitos fundamentais que constituem o conhecimento puro; mais se abstém da detalhada análise desses conceitos e do exame dos que se derivam deles, em parte porque esta decomposição não seria conforme seu fim, e ademais não apresenta tanta dificuldade como a síntese, que é o objeto da Crítica, e nessa parte também porque seria contrário à unidade do plano entreter-se nessa análise e derivação tão acabados, podendo eximir-se de tal empenho. Ademais, assim a análise perfeita dos conceitos a priori, como a dedução dos que depois têm de ser derivados, é coisa fácil de suprir, sempre que antes tenham sido expostos detalhadamente como princípios da síntese e nada lhes falte em relação a esse fim essencial.

            Segundo isto, tudo o que constitui a Filosofia transcendental pertence à Crítica da Razão pura, que é a idéia completa da Filosofia transcendental; mas não esta ciência mesma, porque na análise só se estende até o que lhe é indispensável para o perfeito juízo do conhecimento sintético a priori.

            O principal propósito que deve guiar-nos na divisão dessa ciência é não introduzir conceitos que contenham algo empírico, isto é, que o conhecimento a priori seja completamente puro. Daí que, ainda que os princípios superiores da Moral e seus conceitos fundamentais sejam conhecimentos a priori, não pertençam, entretanto, à Filosofia transcendental[9]; porque os conceitos de prazer ou de dor, de desejo ou inclinação, têm todos uma origem empírica, e ainda que seja certo que não fundamentam os preceitos morais, devem, entretanto, formar parte da Moralidade pura, juntamente com o conceito de dever de dominar os obstáculos ou dos impulsos a que não devemos entregar-nos[10]. Donde se segue que a Filosofia transcendental é a Filosofia da Razão pura simplesmente especulativa, porque tudo o concernente à prática, enquanto contém móveis, se refere aos sentimentos que pertencem às fontes empíricas do conhecimento.

            Se se quer fazer a divisão dessa Ciência desde o ponto de vista geral de um sistema, ela deve compreender: 1º uma Teoria elementar da Razão pura, e 2º uma Teoria do Método da Razão pura. Cada uma dessas partes principais terá suas subdivisões, cujos fundamentos não poderão ser facilmente expostos aqui. O que parece necessário recordar na introdução é que o conhecimento humano tem duas origens e que talvez ambos procedam de uma comum raiz desconhecida para nós; estes são: a sensibilidade e o entendimento; pela primeira, os objetos não são dados, e pelo segundo, concebidos. A sensibilidade pertence à Filosofia transcendental por conter representações a priori, que por sua vez encerram as condições mediante as quais nos são dados os objetos. A teoria transcendental da sensibilidade deve pertencer à primeira parte da Ciência elementar, pois as condições sob as quais se dão os objetos ao conhecimento humano precedem aquelas sob as quais são concebidos esses mesmos objetos.

 

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* a presente tradução foi feita a partir da obra “Crítica de la razon pura” de Don José del Perojo, cuja obra foi editada por Gaspar Editores – Madrid, 1883



[1] No lugar destas duas primeiras seções da Introdução, que na primeira edição só se compunha de duas seções (I - Idéia da Filosofia transcendental. II - Divisão da Filosofia transcendental), achava-se nela unicamente o que segue:

                "A Experiência é, sem dúvida alguma, o primeiro produto que o nosso entendimento realiza ao elaborar a matéria rude das sensações sensíveis. É também por isto o primeiro ensinamento e em sua marcha tão inesgotável em novos ensinamentos que toda a cadeia de gerações futuras não carecerá nunca de novos conhecimentos recolhidos neste solo. Não é ela, entretanto, o único campo a que nosso entendimento tem de ficar limitado. É verdade que ela nos diz que isso é, mas não que isso tenha que ser assim necessariamente e não de outra maneira. Por esta razão não nos dá tampouco uma verdadeira universalidade, e a Razão, que tanto ansia conhecimentos deste gênero, se vê mais precisamente excitada por ela do que satisfeita. Assim, pois, esses conhecimentos, que têm ao mesmo tempo o caráter de uma necessidade intrínseca, devem ser independentes da Experiência, e ser por si mesmos claros e certos; chama-se-os por este motivo conhecimentos a priori, e, ao contrário, aquilo que só é obtido da Experiência, unicamente a posteriori ou empiricamente pode ser conhecido.

                Mas nota-se agora, o que é muito importante, que inclusive entre nossas próprias experiências misturam-se conhecimentos cuja origem deve ser a priori, e que talvez só servem para pôr em relação nossas representações sensíveis. Porque, quando das experiências se faz abstração de tudo o que aos sentidos pertence, ficam, entretanto, subsistindo certos conceitos primitivos nos juízos deles, derivados os que deveram existir a priori e independentes de toda a experiência, porque eles fazem com que se possa dizer, ou se creia poder dizer de objetos que aparecem aos sentidos mais que o que a Experiência isolada poderia ensinar-nos, contendo estas afirmações verdadeira universalidade e estrita necessidade, coisas que nunca poderia proporcionar-nos o conhecimento simplesmente empírico".

[2] No lugar do parágrafo que acaba de ler-se se achavam na primeira edição os dois que seguem:

                "Resulta daqui claramente: 1º, que pelo juízo analítico nosso juízo não obtém extensão alguma, mas só se decompõe e esclarece um conceito que já possuíamos; 2º, que no juízo sintético se precisa, além do conceito de sujeito, algo (chamemo-lo X) sobre o qual possa fundar-se o Entendimento para conhecer um predicado que, sem achar-se naquele conceito, lhe pertence, entretanto.

                Os juízos empíricos ou de experiência não oferecem semelhante dificuldade, pois dita X é a experiência toda do objeto, pensado por um conceito A que só constitui uma parte dessa experiência. Ainda que não se inclua no conceito de corpo em geral o predicado de pesadume, esse conceito designa a experiência completa com só parte da mesma, e que portanto pode completar-se com outras partes que pertencem ao mesmo conceito. Posso primeiro conhecer analiticamente o conceito de corpo pelas propriedades de extensão, impenetrabilidade, forma, etc., etc., que se acham todas nele compreendidas. Mas estendo aqui meu conhecimento, e, voltando à experiência de onde tirei o conceito de corpo, descubro que a propriedade de pesadume vai sempre unida com as anteriores. Portanto, nessa experiência que chamamos X e que está fora do conceito A, se funda a possibilidade da síntese do predicado B (pesadume) como o conceito A (corpo)".

[3] Respeito à Física pura, poder-se-ia duvidar; mas pode-se apenas considerar as diferentes proposições que são tratadas no princípio da Física propriamente empírica, como a da permanência de quantidade da matéria, a de inércia, a da igualdade de ação e reação, e em breve se chega à convicção de que constituem uma Física pura (ou racional), que bem merece ser exposta separadamente em toda sua extensão e como uma Ciência especial.

[4] A primeira edição diz "que pode servir à Crítica da Razão pura". Chama-se conhecimento puro aquele que não se acha misturado com nada estranho. Mas é em particular chamado um conhecimento absolutamente puro quando não contém nada empírico ou sensível, e, portanto, é completamente possível a priori. A Razão é, pois, a faculdade, etc. (N. do T.)

[5] A primeira edição diz: "com nossos conceitos a priori dos objetos". (N. do T.)

[6] A primeira edição não tinha o que desde o último ponto acaba de ler-se.

[7] Aqui começava na primeira edição a segunda parte da Introdução.

[8] Esta frase é adição à segunda edição. (Notas do T.)

[9] Note bem o leitor o que acaba Kant de consignar: nada menos que a Natureza da Moral. Fácil terá sido isto, sem dúvida alguma, ao leitor atento; mas não pudemos prescindir de fazer-lhe esse chamamento, em vista de que ainda há pessoas que falam de contradições entre a Crítica da Razão pura e a da Razão prática e da fábula de Lampe, para quem compôs Kant esta última obra porque ficava sem Deus.

[10] Na primeira edição dizia Kant: "porque os conceitos de prazer e dor, de desejo e inclinação, de volição, etc., etc, que têm todos uma origem empírica, deviam ser supostos nela". (Notas do T.)